Para quem gosta de Vince Vaughn sabe que sua presença em um filme é garantia de entretenimento. Na maior parte de sua carreira teve a sabedoria (ou a sorte) de trabalhar com diretores que sabiam aproveitar o melhor de sua atuação. Quase sempre interpretando papéis de adultos que se recusam a amadurecer, Vaugh carrega o mesmo personagem de um filme para outro, o que de certa forma facilita o processo de identificação com o protagonista.
"The Dilemma" conta a história dos empresários Ronny Valentine (Vince Vaugh) e Nick Brannen (Kevin James) em busca de um contrato com uma grande marca automobilística. Porém, tudo pode dar errado quando Ronny descobre que a esposa de Nick, Geneva (Winona Ryder), mantém um caso extra conjugal, e a partir daí, Nick precisa se decidir se revela a respeito da infidelidade de Geneva, pondo em risco a estabilidade mental de seu parceiro em um momento tão delicado, já que precisam terminar um protótipo para fechar o negócio.
Apesar de partir de uma premissa simples, Ron Howard e seu diretor de arte nos levam através da trama de forma visualmente elegante e inventiva. Gastando pouco tempo de filme em sua abertura consegue estabelecer a relação de comunhão dos principais personagens à mesa se divertindo e contando velhas histórias. E com poucas cenas já sabemos exatamente o tipo de pessoa que Ronny é: um sujeito afiado, que resolve tudo na lábia, em oposição ao seu parceiro Nick, o gênio recluso da dupla com crises de ansiedade e ataques de pânico.
Howard habilmente manipula na tela o estado mental de Ronny, tendo que durante todo o filme administrar uma situação que claramente não é capaz de lidar. Tirando partido de elementos urbanos em oposição à solidão do personagem, ou apenas acentuando o desespero do mesmo, a direção de arte ainda utiliza metafóricamente marcas visuais (machucados, roupas amassadas) para deixar claro que aquele atrapalhado Ronny está fora de seu ambiente. Inclusive duas cenas com peixes fora d´agua me fazem acreditar que esse era exatamente o objetivo.
Alguns planos são dignos de menção. Notem como a cozinha que Beth trabalha (Jennifer Connelly) está viva no começo do filme, com pessoas, fumaça e comidas coloridas, e aparece limpa e estéril em um momento difícil em seu relacionamento com Ronny. Em outro momento, saímos de um agradável e aconchegante bar com revestimento em madeira e somos jogados em um hall corporativo frio, em concreto, com pé direito altíssimo, quando os personagens se dão conta dos problemas que terão pela frente. Mais adiante, com um lindo plano geral, o diretor coloca lado a lado o estacionamento da mesma empresa com diversos carros por onde circula Ronny e um rio caudaloso, que representa ainda um obstáculo a ser superado pelo protagonista.
Ron Howard dirigiu diversos gêneros cinematográficos (de "Cocoon" passando por "Uma mente brilhante" até "O código Da Vinci") e sabendo disso, talvez não soe tão estranho o fato de que a parte dramática pareça funcionar bem melhor que a parte cômica do filme. Além disso, o roteiro consegue fugir do uso do humor pateta para sentimentalizar fraternidade e infantilizar masculinidade. Guardando algumas surpresas para o terceiro ato sem parecer moralista, The Dilemma talvez seja o melhor filme de Vaugh desde "Penetras bons de bico".
4/5 Leopardos

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