Existem elementos recorrentes em filmes voltados para o público infanto/juvenil, e a idéia do pai ausente (ou da figura masculina ausente) na vida de pré adolescentes já foi trabalhada em diversas projeções. Mas isso não não chega a ser um demérito em "Real Steel" pois a força desse clichê bem trabalhado sempre vai ecoar na mente, ou nos corações, não só dos pequenos mas nos de muitos adultos que precisam lidar com os próprios filhos ou situações guardadas no armário com seus velhos pais.
"Real Steel" conta a história de Charlie (Hugh Jackman) um ex lutador de boxe que atualmente vive de brigas de robôs em um futuro onde as máquinas substituíram os seres humanos nos combates para o entretenimento. Após diversos revezes com seus robôs, Charlie tenta dar um golpe com a guarda de seu filho (nunca reconhecido por ele) na tentativa de extorquir dinheiro dos parentes após a morte de sua ex-mulher. Para isso ele precisará passar um verão com seu filho em uma situação estranha para ambos já que eles nunca se conheceram.
A história não é nada genial. Mas eu me pergunto o quanto de originalidade se espera em um filme "pop" e comercial como esse (e outros). Você sabe pra onde o filme vai, mas isso não impede que você aproveite o passeio. E é um belo passeio. "Real Steel"é um filme cheio de energia e coração que se beneficia de trabalhar com gêneros e sub-gêneros que o público é familiarizado, usando a tecnologia como desculpa para contar uma história sobre seres humanos.
Já em sua abertura somos apresentados à Charlie, que aparece sobreposto melancolicamente pelo reflexo de um enorme parque de diversões, e sem nenhuma fala sabemos que aquela mistura de tecnologia e entretenimento fazem parte da história do protagonista. A direção de arte é eficiente criando um futuro próximo (2020) bastante convincente e sem exageros. De forma inteligente ela evoca o retrô na arquitetura e no design (repare os banners das lutas) que com sua geometrização e paleta dessaturada não entra em conflito com as luzes e o neon do circo criado em torno das lutas. Há uma cena onde Charlie encontra seu filho Max pela primeira vez após 11 anos e o distanciamento entre os personagens é retratado nos pórticos gigantes de entrada da fachada do ginásio (de robôs) fazendo os personagens ficarem minúsculos em cena.
A direção de arte também trabalhou com capricho nos cenários (a luta em um zoológico abandonado transformado em arena é de uma criatividade memorável.) me lembrando muito "A.I - inteligencia Artificial - 2001". Também é interessante notar o contraponto em como o ser humano lida com a tecnologia de forma mais banal e menos subserviente do que em outras projeções que nos mostram escravos ou deslumbrados demais com a tecnologia.
A química entre os protagonistas (e eu de forma herege incluo o robô no trio) funciona com mais empatia do que talento ou técnica na interpretação. Tudo meio no automático (menos o robô). Jackman é um carismático por excelência e o robô é antropomorfizado na medida certa, com olhos simétricos e uma costura na altura da boca que o faz parecer mais humano do que os diversos outros robôs que aparecem no filme. Mas não só isso, após encontrar o robô, Max dá um banho nele e descobre seu nome por trás da lama. Uma belíssima cena de batismo que aumenta nosso elo com os personagens. O roteiro tenta trabalhar a ideia de que existe alguma conexão superior entre Max e o robô mas não chega a amarrar a premissa, o que de certa forma evita que o filme caia no pieguismo. O robô é apenas um robô. Me lembrou muito "Marley" onde a produção evitou cair no mesmo erro. Marley é apenas uma cachorro.
Misturando com eficiência todos os elementos de um filme de boxe com uma boa dose emotiva (já vistas em "The Champ - 1979" e "Over the Top - 1987") "Real Steel" trabalha superficialmente diversas outras camadas (relações humanas X tecnologia) sem ofender o público de nenhuma faixa etária.















